XII

Rum & Cola

Cigarro na mão
Amor nos olhos
As horas passam
E já sinto as saudades
A correrem pelo corpo

Liberto o rancor em formas de fumo
No copo é aonde a minha mente segue,
sem direção sem rumo

Poderia fazer-me à estrada,
sem me importar com nada
Entrar numa casa de bordel,
deleitar-se no calor de corpos de aluguel

[...] Só que não [...]
Sorte ou destino,
preferi tomar uma dose de Sauvignon
para salvar a paz interior
que por acaso ela já terminou...

Chefia!
Abarrote o meu copo de paz, por favor
Quero achar o meu ego e
segredar-lhe os meus pensamentos...
Sangue-sangue não se fatigam
Rum para me lembrar que sou valente
E Coca-Cola para me dizer que sou de sangue puro

XI

Bilhete de Passagem

Uns viajam para esquecer, eu viajo para recordar
Quer das tristezas, quer das felicidades
Para espairecer, me achar
Tanto das vivências, quer das afinidades

Diga-se de passagem que o futuro actual é a miragem do passado
Por isso, escolho diariamente viajar na reminiscência do nosso amor
E como preço tenho vislumbres das tempestades e turbulências
Rezando que os ventos tragam nos seus sopros o teu odor
Para que, pela última vez, possa me confortar nas recordações,
aquando sentávamos no pátio
Falando por horas afinco
Eu e as minhas anedotas
Tu e os teus sorrisos
Dois rostos cheios de vincos

É também adormecer nos sopros dos ventos
E lembrar daquilo tudo que nos aconteceu
Dos abraços que não demos, das discussões que tivemos
O que somos agora é o fruto de um adeus mal dado
De um amor mal retornado
E inclusive do apego forçado

Bilhete de Passagem (def.)
é quando deixo o presente para embarcar nas tuas histórias
Descalço, correndo por ti, entre as nebulosas trilhas
Na falta de guia, vou seguindo o relógio sem me preocupar com as horas
Falando sobre planos, até que se faça chover utopias.

XI

Amor sem destinatário

É o caso dos acasos
Do destino mal destinado
Sem remetente, sem destinatário
O amor mal premeditado que vive no açúcar amargurado

São tantos encantos,
Que no entanto
A gente deixa por aí...num canto
E quando alguém o encontrar
A gente vai tentar lhe reivindicar através de prantos...

Há tanta coisa absurda
Mas ainda assim o mundo nos julga
Pela pessoa que a gente se debruça
E escolhe em ser o seu pintor:
Pegar nos seus defeitos e torná-los em algo maior...

Amor vem, amor vai
Somos frutos do acaso
Nascidos sem mãe sem pai
Num mundo vulgar
Sem alguém que nos possa educar o propósito de realmente amar!

X

Quem Somos Nós

Geração Y - Millennials
Somos heroís desconhecidos,
sem capa, sem farda, e sem arma
Desempregados e sem precedentes,
vivendo do sabor de uma vida mal amada..

Vivíamos sob o teto do governo português
onde sentimos na pele a repressão e a opressão
35 anos mais tarde,
o governo é outro mas a escravatura é a mesma,
pois a luta agora é contra o peculato e a corrupção.

Geração Z
Somos jovens suicidas,
asfixiados pela demanda de expectativa
a dizer aos outros jovens que o suicídio não é a solução.

Somos fumantes,
Mas optamos pela palavra "amante"
O pulmão e o coração, inocentes,
algemados numa nebula de fumo,
expelindo pela boca o odor do defunto
que aos poucos vai cavando o seu próprio túmulo.

Outrora ancestrais com catanas, hoje
filhos com lápis e esferográfica
a caminho de três formações mal formadas
Luandando no final da tarde,
depois de sair da Baixa para o CV entregar,
bombom com ginguba é o nosso jantar.

Geração Alpha
Somos crianças desta nação
desnutridos de sonhos,
magros, alimentados por um futuro intrigante
onde a esperança a cada mês perece.

Parece que temos escolha, mas não
É tipo a democracia cá na banda,
uma mera ilusão...

Adolescente de 15 anos
prostitui-se para alimentar a família
O pai, indignado, deita fora a comida
A mãe faz prantos, e acusa a igreja de bruxaria
a irmã, carente e desnutrida, passa à fome
enquanto o irmão ajuda com o que pode
fazendo assaltos na ponte.

Quem somos nós? Quem sou eu!?
Para ser honesto,
e sem mencionar o resto,
não sei quem sou, por que eu luto
e nem tão pouco para onde vou.

Sinto nada, cansei-me de tudo
Sigo avante como manda o hino
buscando e abraçando o pouco
e do pouco que consigo
já é o suficiente pra garantir um copo
ou quem sabe um corpo
Até porque lixado já estou,
mas solitário é que não fico.


VIII

Words I fail to say, But my heart yells them

There are things we never forget
Like a hug
The very first kiss
The body in the bedsheet
Like labyrinth, knowing
Every corner of it

There are things meant to be unforgettable
Like the face of our childhood love
Her doll face in a mermaid body
The female innocence

There are things that are never enough to be said...
Like "I love you"
"I miss you"
"I wish you could be here"

I am a poet
But these are the words that pains me the most to say
And
There are words like "I'm sorry"
Words like these that my heart yells
Everytime
Everyday
That it should be years now
Without stopping...

VIII

Souvenir de uma Saudade

Às vezes, para matar as saudades, coloco uma das almofadas no peito e fico a imaginar você adormecida nele
Fico preso a acompanhar o teu lento respirar
Caindo em vertigens ao apreciar os teus cabelos a deslizarem entre os meus dedos como se fossem areia do mar
Desmaio em sonhos quando o meu coração escuta os teus batimentos cardíacos
Decifrando meticulosamente a variação de bombeio em cada teu sentimento perdido

Sinto falta de te ver a brincar no chuveiro
Vendo a água a deslizar pelo teu corpo inteiro
Saindo das montanhas dos teus seios
até perder a altitude nas cascatas das tuas pernas
Desaguando na Foz do Banheiro

As viagens não param até que eu também caia no sono.
E quando acontecer, ainda estaremos juntos, pertinhos e aconchegados
Deitados nesta mesma minúscula cama, com lençóis brancos amarrotados
Os nossos pés, que nem estrelas, juntinhos e entrelaçados
E eu a fazer cafuné nesses teus pequeninos lábios...

"Souvenir é sentir o teu perfume nestas fronhas quando tu já não estás por perto"

VI

Um Desabafo Académico

Em véspera de projectos e defesas, pessoas lindas e formosas, irrita-me quando alguém me pergunta se não irei defender. E caso responder que sim, hão de perguntar o porquê de estar vestido de tal forma.
É uma pergunta não obstante curiosa, mas no entanto ridícula. E aí me pergunto:
"O que será o mais importante? A minha vestimenta ou o meu trabalho? Aquilo que carrego no corpo ou na cabeça?"
De qualquer forma, de nada me adianta pensar na vestimenta que irei de usar, se não consigo fazer o meu programa compilar.
É tão simples assim porra!

I

Tudo Vale!

Tudo vale!
Nesse jogo não há batotas
Tua vitória é minha vitória
Destarte, não haver derrotas

Tudo vale!
No tapete ou na cama
Na cozinha ou na sala
No quarto das crianças
ou mesmo na varanda

Aonde quer que seja,
o importante mesmo é fazer
Mas que se faça bem!
O que é mal feito causa arrependimentos
Então façamos, meu bem

Tudo vale!
Pegar na peruca ou rasgar a camisa
Com ou sem camisinha
Rápido e forte
Ou gostoso e lento

Tudo vale!
Desarrumar a casa ou quebrar a mobília
Deixar que os vizinhos chamem a policia
Em tempos de tréguas ou intrigas
Temos de saber que haverá sempre carícias

Aonde quer que seja,
o importante mesmo é fazer
Mas que se faça bem!
O que é mal feito, causa arrependimentos
Então façamos, meu bem

Até porque,
nesse jogo vale tudo
Só não vale mesmo
é acordar as crianças.

Luanda, sua prostituta!

Coitada de Luanda,
onde o poder compra as suas curvas
com empreitadas
Estrangeiros seduzidos pelas suas noitadas

Coitada de Luanda,
sem escolhas, ela troca tudo por kwanzas
Dando prioridade a quem mais paga
Oh, Luanda!
Mas que mulher precoce te tornaste!

Antes,
uma linda beldade,
com um corpo esbelta
e seios pequenos
Hoje,
na falta de investimento 
e a barriga cheia de pneus,
já não és o predilecto pitéu
Resultado do leite ter azedado
e o esperma ter adocicado
Não passas de uma mulher
fora do padrão americano
à busca do sustento europeu

O tempo passou
Novinhas nasceram
Então, maquias a tua beleza
com betumes e pedras
para agradar o branco
que sempre preferiu as magrelas
Tal como as estradas desabam,
assim cai o teu betume com chuvas de lágrimas

Injectas a economia em tuas jardas
Declaras-te mulher independente
roubando as terras dos outros
E para quê?!
Para ver os teus filhos únicos a sofrer,
dentro de um acaba-de-me-matar*,
a morrerem por falta de iluminação
nos labirintos do Zenga

E tu, sem vergonha na cara,
ousas, ainda assim,
exibir as tuas cirurgias plásticas
minimamente completadas,
injectando a economia em tuas jardas,
que de tanta má gerência elas apodrecem
tal como o lixo e as águas paradas

O ocidente fode e chula os barões
Os barões, de tanto stress, fodem-te a ti
E tu, sem saber o que fazer,
chulas os empregados dos barões
E assim segue o jogo da foda
Cada um pega e passa
Tal como diz a anciente história...

O poder te seduziu
A luxúria te vestiu
O tempo ditou os problemas
O dinheiro reduziu
e o lixo te extinguiu

Já não dá para renovar as jardas
ou ter maquiagem betuminosas
e louboutin de varões altos
E agora, agora que banga acabou
e a tua cara inflamou,
tens a difamação de uma prostituta
que serve a todos e agrada poucos

Quando deres por ti,
estás outra vez grávida
E como quem da piada ri,
estaremos novamente
a bater a porta do FMI.